Publico este texto, assim, incompleto, pois acredito que já me desencumbi da tarefa de terminá-lo. No entanto, considero o esboço razoável o suficiente para que tomem conhecimento do mesmo.
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A Sagrada Escritura ignora, mas é fato – e cabe a mim, em meus desígnios de profeta, revelar a vós a História como ela é – que, no ano de 1965, Satanás passeou pela Terra. De modo que, por mais que eu o esteja fazendo com a plena consciência de que minha alma há de arder nas chamas eternas pelos séculos dos séculos, dada a minha vil condição de delator dos segredos de Deus, não sinto sequer uma ponta que seja de angústia ou temor. Conheço em mim mesmo que A Verdade deve sempre se sobrepor a todas as conseqüências.
Pois a coisa é que o Tinhoso encontrava-se muito aborrecido com a queda descomunal na quantidade de almas que a cada dia lhe batiam à porta e colocou-se, então, a meditar sobre a melhor maneira de reviver os gloriosos dias do Inferno, quando até mesmo senha era preciso para entrar. Catorze foram os dias de árdua análise e trabalho cerebral, ao fim dos quais pôde concluir que seu lar prescindia, mesmo, era de uma boa decoração: caldeirões de aço, tridentes barrocos e labaredas démodé não podiam fazer frente à vista de anjos tocando harpas e virgens se refrescando em fontes da mais cristalina das águas. O Cabrunco, então, chamou qualquer infeliz num canto, deu a ele breves instruções para que tomasse conta do lugar por alguns dias e saiu às compras.
Na Terra, seus olhos se perderam em pecados e luxúria durante sete dias e sete noites. Lúcifer, disfarçado sob as formas de uma mulher, vagueou por todas as cidades do mundo em busca do que de mais novo e atraente havia em termos de beleza e aviamentos, esbanjando notas de cem dólares e estourando o limite do cheque especial. Ao fim desse período sua labuta estava concluída: duas mesas de sinuca, uns baralhinhos de seda e meia dúzia de fliperamas haveriam de transformar as profundezas em um lugar tão bacana quanto Las Vegas.
Finda a tarefa, chegara a hora do retorno ao lar. No entanto, o Pé-Fendado sentia em seu íntimo que, por mais que tivesse obtido sucesso em sua empreitada, algo ficava para trás. Sentia, no âmago do ser, um vazio existencial, um sentimento de esquecimento e perturbação, mui semelhante àquele que, em noites enluaradas, varre os corações de rapazotes e mais rapazotes – na companhia triste e solitária de um copo de conhaque – ao redor do mundo. O Diabo, então, tudo compreendeu: viera ao mundo e não fizera uma maldadezinha que fosse.
Decidido a corrigir essa falha na viagem dentro do curto tempo que ainda lhe restava entre os homens, agiu com pressa e desmazelo. Talvez – e aqui devo alertar-vos que não ajo de outra maneira senão através do mais puro processo especulativo – se tivesse observado mais brevemente a sua falha, o Coisa Ruim poderia ter se lançado de artimanhas muito mais cruéis do que as que de fato foram utilizadas. No entanto, o breve prazo disponível para que o Demonho espalhasse entre nós a sua maldade acabou por salvar a humanidade de uma possível invenção precoce da axé music ou do bifinho de soja. De fato, tudo o que o Cramunhão pôde fazer foi lançar o seu sinal sobre uma criança que nascia na cidadezinha de Braga, estado do Rio Grande do Sul, em uma noite de setembro do ano de 1965. O Nome do menino? Carlos Eugênio Simon.
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O fato é que a ideia original era tecer uma epopéia a cerca da história de Simon - essa nuvem negra de tristeza e terror - abrangendo toda a sua vida, da concepção à derradeira falha do domingo último, ao anular inexplicavelmente um gol legal de Obina. Fica aqui o registro de minha miséria e incapacidade.
Um beijo a todos os meus (dois) leitores.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
Nine Out of Ten
Certa vez li alguém dizer – e já não me recordo quem – que a porcentagem de seres humanos que marcam uma época e hão de se tornar símbolos representativos para as gerações vindouras não passa de dez por cento. De modo que, embora hoje te vendam uma ideia bacana de que em 1970 todo mundo usava camisa de seda, tal assertiva se mostra, em verdade, uma mera falácia: somente um décimo das pessoas usava.
No entanto, por que hoje guardamos tal lembrança? Ora, porque esse décimo da população era justamente o mais intelectualizado, o que possuía maior acesso aos meios de comunicação e também mais influência sobre os mesmos, ou, simplificando tudo em favor de um termo populista, o mais bem-nascido. (É quando o nobre leitor me questiona da validade do intelecto desses sujeitos, se os mesmos continuavam a trajar camisas de seda e passar brilhantina no cabelo). Então, o autor da tese largava um Fatality e dizia que noventa por cento dos habitantes do mundo estão por aí só fazendo a figuração.
O que me faz pensar: será que esses nove décimos que em nada alteram o quadro social não são os mesmos desde sempre? Basta-me um pequeno exercício de imaginação para enxergar através da história indivíduos assistindo telenovela enquanto Jesus era crucificado, garotas tomando sol na laje enquanto Nero ateava fogo em Roma e homens proseando amenidades enquanto Charles Müller juntava uma dúzia de bravos cavalheiros, cercava um gramado e botava uma gordinha pra rolar.
No entanto, por que hoje guardamos tal lembrança? Ora, porque esse décimo da população era justamente o mais intelectualizado, o que possuía maior acesso aos meios de comunicação e também mais influência sobre os mesmos, ou, simplificando tudo em favor de um termo populista, o mais bem-nascido. (É quando o nobre leitor me questiona da validade do intelecto desses sujeitos, se os mesmos continuavam a trajar camisas de seda e passar brilhantina no cabelo). Então, o autor da tese largava um Fatality e dizia que noventa por cento dos habitantes do mundo estão por aí só fazendo a figuração.
O que me faz pensar: será que esses nove décimos que em nada alteram o quadro social não são os mesmos desde sempre? Basta-me um pequeno exercício de imaginação para enxergar através da história indivíduos assistindo telenovela enquanto Jesus era crucificado, garotas tomando sol na laje enquanto Nero ateava fogo em Roma e homens proseando amenidades enquanto Charles Müller juntava uma dúzia de bravos cavalheiros, cercava um gramado e botava uma gordinha pra rolar.
sábado, 19 de setembro de 2009
Uma desilusão patética
Tenho trauma com a Disney. Não com a Disney, propriamente, mas com os personagens. Tenho trauma com o Pateta.
Isso porque, em algum dia solenemente perdido dentre todos os outros dias de minha infância, um carro-de-som – tipo daqueles de pamonha, mas sem a pamonha - passou na minha rua anunciando, tal qual fosse o fim do mundo, que o trenzinho havia chegado.
Pra quem nunca morou no interior, explico: o tal trenzinho nada mais é que um veículo - que até conserva as formas de um trem, porém é composto apenas de uma máquina e um vagão, devidamente atrelados - que tem por função tomar o dinheiro dos pais das crianças. Para isso, o danado se vale da presença de bonecos que ficam sobre ele expostos e percorrem toda a cidade dando tchauzinho de cima do vagão e convidando as crianças pra darem também uma passeada no trem. É claro que os donos de tão fabuloso meio de transporte não usam barbas e tampouco vestem vermelho, de modo que, entregues de corpo e alma a esse búfalo lascivo que é o capitalismo, requerem um real para a tal voltinha.
Pois bem. Eu, como criança feliz, saudável e igual a todas as outras, fiquei em chamas ao ver toda aquela magia diante do meu alcance, e praticamente exigi que meu pai me custeasse um passeio no tal trenzinho. A ele, homem de bom caráter, não sobrou alternativa senão resignar-se e atender aos meus anseios.
Da parte do passeio, não darei detalhes - uma vez que acredito que a humanidade ainda não concebeu palavras capazes de descreverem todo o meu sentimento.
Findada a voltinha, eu sentia uma felicidade quase que completa. E digo 'quase' porque ainda me faltava conhecer aqueles personagens que tanto me fascinavam. Personagens estes que eu, àquela altura, acreditava serem os de verdade, os da Disney mesmo – da mesma maneira que acreditei que o Sílvio Santos estava dentro daquela KOMBI do Baú da Felicidade que também passou em minha rua - diretamente saídos das telinhas da tevê para o trenzinho místico. Então, enchi-me de coragem - coisa muito mais difícil naqueles tempos em que eu não conhecia a cerveja - e corri para abraçar Pateta e Mickey.
Do abraço, tudo o que posso dizer é que foi o mais caloroso que recebi em anos. Agora sim eu era uma criança completa e plena. E assim permaneci por, sei lá, uns dois minutos.
Talvez eu pudesse estar me sentido daquela maneira até hoje. Mas não estou. Não estou e nunca mais estarei. Não estou e nunca mais estarei, porque a cena que então presenciei, meus amigos, foi das mais dilacerantes que um ser humano pode presenciar.
Eu vi Pateta e Mickey, após saudarem todos os outros piás, dirigirem-se a um banco vago. E nesse banco eles se sentaram. E, uma vez sentados, devem ter enfim se lembrado do quão pesado é o mundo. E então removeram suas próprias cabeças e as colocaram de lado. Pateta e Mickey eram humanos. Humanos com cabeça de Pateta e Mickey. Seria apenas trágico, se mais trágico ainda não fosse.
Sim, pois, não contente em remover a sua cabeça, Pateta – agora já revelado a mim apenas mais um homem sórdido e cruel – acendeu um cigarro. Isso eu não suportei. Eu podia plenamente aceitar, embora me custasse algum esforço, que Pateta era humano; o que eu não podia aceitar é que ele fosse um viciado. O cigarro do Pateta me levou aos prantos.
Desde então, nunca desejei ir à Disney. E nem entrei em trem qualquer que fosse.
Isso porque, em algum dia solenemente perdido dentre todos os outros dias de minha infância, um carro-de-som – tipo daqueles de pamonha, mas sem a pamonha - passou na minha rua anunciando, tal qual fosse o fim do mundo, que o trenzinho havia chegado.
Pra quem nunca morou no interior, explico: o tal trenzinho nada mais é que um veículo - que até conserva as formas de um trem, porém é composto apenas de uma máquina e um vagão, devidamente atrelados - que tem por função tomar o dinheiro dos pais das crianças. Para isso, o danado se vale da presença de bonecos que ficam sobre ele expostos e percorrem toda a cidade dando tchauzinho de cima do vagão e convidando as crianças pra darem também uma passeada no trem. É claro que os donos de tão fabuloso meio de transporte não usam barbas e tampouco vestem vermelho, de modo que, entregues de corpo e alma a esse búfalo lascivo que é o capitalismo, requerem um real para a tal voltinha.
Pois bem. Eu, como criança feliz, saudável e igual a todas as outras, fiquei em chamas ao ver toda aquela magia diante do meu alcance, e praticamente exigi que meu pai me custeasse um passeio no tal trenzinho. A ele, homem de bom caráter, não sobrou alternativa senão resignar-se e atender aos meus anseios.
Da parte do passeio, não darei detalhes - uma vez que acredito que a humanidade ainda não concebeu palavras capazes de descreverem todo o meu sentimento.
Findada a voltinha, eu sentia uma felicidade quase que completa. E digo 'quase' porque ainda me faltava conhecer aqueles personagens que tanto me fascinavam. Personagens estes que eu, àquela altura, acreditava serem os de verdade, os da Disney mesmo – da mesma maneira que acreditei que o Sílvio Santos estava dentro daquela KOMBI do Baú da Felicidade que também passou em minha rua - diretamente saídos das telinhas da tevê para o trenzinho místico. Então, enchi-me de coragem - coisa muito mais difícil naqueles tempos em que eu não conhecia a cerveja - e corri para abraçar Pateta e Mickey.
Do abraço, tudo o que posso dizer é que foi o mais caloroso que recebi em anos. Agora sim eu era uma criança completa e plena. E assim permaneci por, sei lá, uns dois minutos.
Talvez eu pudesse estar me sentido daquela maneira até hoje. Mas não estou. Não estou e nunca mais estarei. Não estou e nunca mais estarei, porque a cena que então presenciei, meus amigos, foi das mais dilacerantes que um ser humano pode presenciar.
Eu vi Pateta e Mickey, após saudarem todos os outros piás, dirigirem-se a um banco vago. E nesse banco eles se sentaram. E, uma vez sentados, devem ter enfim se lembrado do quão pesado é o mundo. E então removeram suas próprias cabeças e as colocaram de lado. Pateta e Mickey eram humanos. Humanos com cabeça de Pateta e Mickey. Seria apenas trágico, se mais trágico ainda não fosse.
Sim, pois, não contente em remover a sua cabeça, Pateta – agora já revelado a mim apenas mais um homem sórdido e cruel – acendeu um cigarro. Isso eu não suportei. Eu podia plenamente aceitar, embora me custasse algum esforço, que Pateta era humano; o que eu não podia aceitar é que ele fosse um viciado. O cigarro do Pateta me levou aos prantos.
Desde então, nunca desejei ir à Disney. E nem entrei em trem qualquer que fosse.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Uma história enfadonha
O Pearl Jam dos anos noventa é uma das minhas bandas do coração. Uma das três. Ou duas ou quatro. Não passam de quatro. O Pearl Jam dos anos noventa é a banda da minha adolescência que hei de levar pela vida toda como retrato de uma época. O Pearl Jam dos anos noventa é a banda responsável por fazer quatro daqueles discos que ouvi incansavelmente e repetidamente por longos anos: Vs, Vitalogy, No Code e Yield.
Lembro-me de estar aos treze ou catorze anos muito interessado na descoberta da música. Já tinha praticado com esta algum contato de certo modo íntimo lá pelos oito ou nove, mas foi somente mais tarde que a nossa relação se intensificou e tomou corpo. Pois um dia, após o colégio, estava eu procurando música através das prateleiras de uma loja de discos quando um deles me chamou a atenção – era feio, bem feio, com a foto em preto-e-branco de um animal agonizante na capa. Levei-o para casa.
Àquela altura eu já ouvira decerto qualquer coisa sobre o Pearl Jam. Era um nome sempre bastante mencionado em publicações a respeito de toda aquela música de Seattle. Ademais, ‘Last Kiss’ varrera as rádios há pouquíssimo tempo, com sua batida simples e refrão absolutamente POP, de modo que o nome conhecido na lombada do disco contribuiu de maneira significativa na minha decisão de comprá-lo. Sou absurdamente agradecido por não ter encontrado nada do BON JOVI naquele dia.
Nos dias que se seguiram, Vs tocou no meu SOM como se não houvesse amanhã, largando abandonado o outro disco eu que trouxera – a saber, Facelift, do Alice In Chains. As canções do álbum soavam mais vivas do que qualquer outra coisa que eu já ouvira até então, jogando-me para cima e para baixo em um êxtase de descoberta juvenil. O timbre e a potência da voz de Eddie Vedder, a bateria crua e visceral de Dave Abbruzzese, as guitarras ora sujas e ora harmoniosas de Gossard e McCready e o baixo sempre pontual de Jeff Ament me abriram os olhos para um tipo de música que eu, até então, pouquíssimo conhecera: a música de verdade.
Vs deve ter sido o meu disco favorito de todos os tempos durante uns oito ou nove meses. Cada audição que eu fazia do álbum me tomava sempre boas duas horas, dado o meu preciosismo em retomar faixas já passadas e acompanhar cautelosamente as letras mal-rabiscadas no encarte do disco, entregando-me ao final um sentimento de satisfação e liberdade. Delight, delight your youth.
Um período bacana, esse. Costumeiramente eu gastava todo o meu pouco dinheiro aventurando-me em lojas de discos usados – mais baratos – na busca de bandas das quais eu pudesse gostar, fosse por recomendação de amigos, pela leitura de revistas e fanzines ou por pura INTUIÇÃO. Apesar de já ser século XXI, a internet, para mim, não existia.
E aqui faço um parêntese para dizer que, talvez, seja justamente esse o motivo da minha fascinação pela música. Tivesse eu desde sempre as comodidades proporcionadas pelos arquivos MP3, quem sabe não teria vivido com ela apenas uma paixonite de momento, como meus pais e seus ACHEGADOS bem profetizaram que seria. Mas não, o contato com os discos, o prazer de tê-los em mãos e poder manuseá-los, somados à felicidade presente em adentrar lojas escuras e perdidas dentre brechas de concreto sempre com uma expectativa dentro do coração me possibilitaram o cultivo da paixão até que esta se revelasse amor. E o que mais me motiva, senão tal amor, a escrever relato tão piegas? Mas divago.
Desse modo, pouco a pouco fui descobrindo os outros discos da banda. Ten surgiu para mim sob a forma de um CD-R feito por um amigo. Posteriormente, transformou-se em minha aquisição mais SOBERBA ao ser comprado em uma loja de discos novos – ah, esses luxos. Yield e Riot Act foram também comprados novos. Vitalogy e Binaural mantiveram a velha tradição e chegaram de segunda mão. Ou terceira, até quarta, coisa que ninguém há de saber.
O que se sabe, entretanto, é que meu disco favorito da banda não foi comprado. Da primeira vez que ouvi No Code, o fiz pela – então já presente – internet.
No Code, dada a dificuldade de ser encontrado em lojas, foi o primeiro disco do qual fiz o download completo. Uma situação até então inédita para mim; bem como inédita era também a sonoridade do disco. É natural que eu já conhecesse boa parte das canções do álbum, por vezes presentes em gravações ao vivo ou escutadas ao acaso. No entanto, ouvir tais canções agrupadas deu um sentido enorme de unidade à coisa. E foi só então que eu comecei a entender tudo.
No Code, lançado em 1996, é um disco de refúgio pessoal. No Code é uma corrida de abandono da cidade grande em direção a algum recanto mais afastado e tranquilo. No Code é o disco que consolida e dá significado real a toda aquela mudança que já começara a ser mostrada em Vitalogy. No Code é um disco extremamente sincero, íntimo e espiritual, feito por uma banda preocupada em manter uma imagem íntegra e de respeito para com os fãs.
De seu lançamento decorrem treze anos.
Anos esses em que o Pearl Jam resolveu dar adeus à regularidade. Se No Code pode ser considerado o ápice da banda, os discos que seguiram são a sua derrocada. Certo, eu concordo, Yield é ainda um belo amontoado de grandes canções, algumas delas tão humanas que poderiam figurar em No Code. O ocaso mesmo veio depois.
Com a chegada do novo século, o termo era “renovação”. E o Pearl Jam, parece, renovou-se ao contrário. Desde o lançamento de Binaural, em 2000, a banda mergulhou em um ciclo sem fim de repetição e falta de criatividade, do qual o último produto é Backspacer.
Backspacer chega fisicamente ao mundo na semana que vem. No entanto, já está na internet há dias. De princípio, cogitei não fazer o download do disco e esperar pelo seu lançamento oficial para que pudesse comprar a versão física. Seria uma postura quase que de religiosidade para com uma banda que tanto preza por seus fãs. Mas ultimamente mal tenho tido dinheiro pra umas cervejas, quem dirá para discos que nunca chegam ao Brasil custando menos de quarenta reais. De maneira que fiz o crime.
A capa do disco, de primeiro olhar, remete aos saudosos tempos de Vitalogy e No Code, sendo composta por um mosaico de ilustrações insólitas. Porém, tais impressões se dissipam tão breve se põe o disco para tocar. Backspacer não acrescenta nada de novo a tudo o que o Pearl Jam já fez, fazendo soar evidente a tentativa de reverberação de um passado brilhante.
As más-línguas dizem por aí que o disco, repleto de canções rapidinhas e pegajosas, é, na verdade, uma baita jogada de marketing, com o objetivo de cativar um público mais jovem. É tudo mentira. Backspacer não vai atrair a atenção de ninguém, senão dos fãs de longa data do som da banda de Seattle. É a essas pessoas que o disco tende a agradar.
No entanto, há um ponto em que Backspacer merece ser louvado: a banda finalmente distanciou-se do teor político que permeou seus dois últimos trabalhos. Afinal, convenhamos, não há nada mais constrangedor do que um bando de roqueiros quarentões tentando parecer engajados com qualquer coisa que seja. Backspacer é um disco que surge com o simples propósito de entreter – e cumpre com isso.
Lembro-me de estar aos treze ou catorze anos muito interessado na descoberta da música. Já tinha praticado com esta algum contato de certo modo íntimo lá pelos oito ou nove, mas foi somente mais tarde que a nossa relação se intensificou e tomou corpo. Pois um dia, após o colégio, estava eu procurando música através das prateleiras de uma loja de discos quando um deles me chamou a atenção – era feio, bem feio, com a foto em preto-e-branco de um animal agonizante na capa. Levei-o para casa.
Àquela altura eu já ouvira decerto qualquer coisa sobre o Pearl Jam. Era um nome sempre bastante mencionado em publicações a respeito de toda aquela música de Seattle. Ademais, ‘Last Kiss’ varrera as rádios há pouquíssimo tempo, com sua batida simples e refrão absolutamente POP, de modo que o nome conhecido na lombada do disco contribuiu de maneira significativa na minha decisão de comprá-lo. Sou absurdamente agradecido por não ter encontrado nada do BON JOVI naquele dia.
Nos dias que se seguiram, Vs tocou no meu SOM como se não houvesse amanhã, largando abandonado o outro disco eu que trouxera – a saber, Facelift, do Alice In Chains. As canções do álbum soavam mais vivas do que qualquer outra coisa que eu já ouvira até então, jogando-me para cima e para baixo em um êxtase de descoberta juvenil. O timbre e a potência da voz de Eddie Vedder, a bateria crua e visceral de Dave Abbruzzese, as guitarras ora sujas e ora harmoniosas de Gossard e McCready e o baixo sempre pontual de Jeff Ament me abriram os olhos para um tipo de música que eu, até então, pouquíssimo conhecera: a música de verdade.
Vs deve ter sido o meu disco favorito de todos os tempos durante uns oito ou nove meses. Cada audição que eu fazia do álbum me tomava sempre boas duas horas, dado o meu preciosismo em retomar faixas já passadas e acompanhar cautelosamente as letras mal-rabiscadas no encarte do disco, entregando-me ao final um sentimento de satisfação e liberdade. Delight, delight your youth.
Um período bacana, esse. Costumeiramente eu gastava todo o meu pouco dinheiro aventurando-me em lojas de discos usados – mais baratos – na busca de bandas das quais eu pudesse gostar, fosse por recomendação de amigos, pela leitura de revistas e fanzines ou por pura INTUIÇÃO. Apesar de já ser século XXI, a internet, para mim, não existia.
E aqui faço um parêntese para dizer que, talvez, seja justamente esse o motivo da minha fascinação pela música. Tivesse eu desde sempre as comodidades proporcionadas pelos arquivos MP3, quem sabe não teria vivido com ela apenas uma paixonite de momento, como meus pais e seus ACHEGADOS bem profetizaram que seria. Mas não, o contato com os discos, o prazer de tê-los em mãos e poder manuseá-los, somados à felicidade presente em adentrar lojas escuras e perdidas dentre brechas de concreto sempre com uma expectativa dentro do coração me possibilitaram o cultivo da paixão até que esta se revelasse amor. E o que mais me motiva, senão tal amor, a escrever relato tão piegas? Mas divago.
Desse modo, pouco a pouco fui descobrindo os outros discos da banda. Ten surgiu para mim sob a forma de um CD-R feito por um amigo. Posteriormente, transformou-se em minha aquisição mais SOBERBA ao ser comprado em uma loja de discos novos – ah, esses luxos. Yield e Riot Act foram também comprados novos. Vitalogy e Binaural mantiveram a velha tradição e chegaram de segunda mão. Ou terceira, até quarta, coisa que ninguém há de saber.
O que se sabe, entretanto, é que meu disco favorito da banda não foi comprado. Da primeira vez que ouvi No Code, o fiz pela – então já presente – internet.
No Code, dada a dificuldade de ser encontrado em lojas, foi o primeiro disco do qual fiz o download completo. Uma situação até então inédita para mim; bem como inédita era também a sonoridade do disco. É natural que eu já conhecesse boa parte das canções do álbum, por vezes presentes em gravações ao vivo ou escutadas ao acaso. No entanto, ouvir tais canções agrupadas deu um sentido enorme de unidade à coisa. E foi só então que eu comecei a entender tudo.
No Code, lançado em 1996, é um disco de refúgio pessoal. No Code é uma corrida de abandono da cidade grande em direção a algum recanto mais afastado e tranquilo. No Code é o disco que consolida e dá significado real a toda aquela mudança que já começara a ser mostrada em Vitalogy. No Code é um disco extremamente sincero, íntimo e espiritual, feito por uma banda preocupada em manter uma imagem íntegra e de respeito para com os fãs.
De seu lançamento decorrem treze anos.
Anos esses em que o Pearl Jam resolveu dar adeus à regularidade. Se No Code pode ser considerado o ápice da banda, os discos que seguiram são a sua derrocada. Certo, eu concordo, Yield é ainda um belo amontoado de grandes canções, algumas delas tão humanas que poderiam figurar em No Code. O ocaso mesmo veio depois.
Com a chegada do novo século, o termo era “renovação”. E o Pearl Jam, parece, renovou-se ao contrário. Desde o lançamento de Binaural, em 2000, a banda mergulhou em um ciclo sem fim de repetição e falta de criatividade, do qual o último produto é Backspacer.
Backspacer chega fisicamente ao mundo na semana que vem. No entanto, já está na internet há dias. De princípio, cogitei não fazer o download do disco e esperar pelo seu lançamento oficial para que pudesse comprar a versão física. Seria uma postura quase que de religiosidade para com uma banda que tanto preza por seus fãs. Mas ultimamente mal tenho tido dinheiro pra umas cervejas, quem dirá para discos que nunca chegam ao Brasil custando menos de quarenta reais. De maneira que fiz o crime.
A capa do disco, de primeiro olhar, remete aos saudosos tempos de Vitalogy e No Code, sendo composta por um mosaico de ilustrações insólitas. Porém, tais impressões se dissipam tão breve se põe o disco para tocar. Backspacer não acrescenta nada de novo a tudo o que o Pearl Jam já fez, fazendo soar evidente a tentativa de reverberação de um passado brilhante.
As más-línguas dizem por aí que o disco, repleto de canções rapidinhas e pegajosas, é, na verdade, uma baita jogada de marketing, com o objetivo de cativar um público mais jovem. É tudo mentira. Backspacer não vai atrair a atenção de ninguém, senão dos fãs de longa data do som da banda de Seattle. É a essas pessoas que o disco tende a agradar.
No entanto, há um ponto em que Backspacer merece ser louvado: a banda finalmente distanciou-se do teor político que permeou seus dois últimos trabalhos. Afinal, convenhamos, não há nada mais constrangedor do que um bando de roqueiros quarentões tentando parecer engajados com qualquer coisa que seja. Backspacer é um disco que surge com o simples propósito de entreter – e cumpre com isso.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Soneto da atualização
Se paira sobre ti, meu amado sítio
A poeira vil da falta de postagem
Dou-te a razão - não é por viagem
Tampouco trabalho que em ti não publico
A razão que tenho para tal delito
É a simples e mais pura das vadiagens
Que põe-se a arruinar toda a aparelhagem
Mental que já é falha - admito
Mas agora cá estou para louvar-te
Em honra à tua fabulosa história
De sangue, luta, coração e arte
Escrevo este soneto em tua glória
Entrego-me de alma pra ser mártir
E manter reluzente a tua memória
..................
Tenho a meu favor o tempo, que prova que escrevi em dez minutos.
A poeira vil da falta de postagem
Dou-te a razão - não é por viagem
Tampouco trabalho que em ti não publico
A razão que tenho para tal delito
É a simples e mais pura das vadiagens
Que põe-se a arruinar toda a aparelhagem
Mental que já é falha - admito
Mas agora cá estou para louvar-te
Em honra à tua fabulosa história
De sangue, luta, coração e arte
Escrevo este soneto em tua glória
Entrego-me de alma pra ser mártir
E manter reluzente a tua memória
..................
Tenho a meu favor o tempo, que prova que escrevi em dez minutos.
sábado, 8 de agosto de 2009
Jesus não joga bola
Após milênios de uma existência sombria e nebulosa, a FIFA parece finalmente ter tomado a primeira decisão LÚCIDA dentro de sua história ao proibir a exibição de mensagens religiosas em partidas oficiais de futebol. Algumas reclamações vinham sendo feitas à instituição há algum tempo, mas esta só deu seu veredicto sobre o assunto após a partida final da última Copa das Confederações, na qual os jogadores da seleção brasileira, após baterem o escrete norte-americano pelo placar de 3x2, reuniram-se no centro do campo a fim de fazer uma festinha para Deus em agradecimento pela glória alcançada.
As imagens, que eram transmitidas ao vivo para todo o mundo, chocaram diversas pessoas, uma vez que é bem sabido que nem todos os fãs do esporte são cristãos. Imaginem, por exemplo, a frustração de um torcedor islâmico ao ver Kaká e Lúcio desfilarem em camisetas com a inscrição “I Love Jesus” ao invés de simplesmente virarem cambalhotas na grama ou se afogarem em barris de cerveja.
Com a decisão, a FIFA busca evitar qualquer tipo de desentendimento mais grave que possa ser gerado. O que certamente ocorreria no caso de algum jogador resolver dedicar seus gols a Belzebu, Tupã, Exu, Zeus, Odin ou qualquer outro tipo de divindade.
Mas a questão vai ainda além de tudo isso. Há, é claro, o lado econômico da coisa.
A Nike – uma empresa feia e malvada que explora a mão-de-obra das crianças chinesas – é, além de fabricante de tênis descolados, a patrocinadora oficial do selecionado brasileiro. E certamente paga uma nota pelo privilégio de ter sua logomarca estampada no peito das BELDADES que vestem a amarelinha. Tudo isso com o único objetivo de expandir o alcance de sua marca e a exposição de seus produtos, certo?
Pois bem. E eis que, quando a marca deveria viver o ápice de sua exposição, a única coisa que é vista se refastelando nas lentes de uma câmera é, ao invés do brasão da empresa, isso aqui:

Fato ao qual o André dia desses aparentemente conseguiu a solução perfeita: talvez seja a hora de começarem a estampar nas camisetas “Nike and me belong to Jesus”.
As imagens, que eram transmitidas ao vivo para todo o mundo, chocaram diversas pessoas, uma vez que é bem sabido que nem todos os fãs do esporte são cristãos. Imaginem, por exemplo, a frustração de um torcedor islâmico ao ver Kaká e Lúcio desfilarem em camisetas com a inscrição “I Love Jesus” ao invés de simplesmente virarem cambalhotas na grama ou se afogarem em barris de cerveja.
Com a decisão, a FIFA busca evitar qualquer tipo de desentendimento mais grave que possa ser gerado. O que certamente ocorreria no caso de algum jogador resolver dedicar seus gols a Belzebu, Tupã, Exu, Zeus, Odin ou qualquer outro tipo de divindade.
Mas a questão vai ainda além de tudo isso. Há, é claro, o lado econômico da coisa.
A Nike – uma empresa feia e malvada que explora a mão-de-obra das crianças chinesas – é, além de fabricante de tênis descolados, a patrocinadora oficial do selecionado brasileiro. E certamente paga uma nota pelo privilégio de ter sua logomarca estampada no peito das BELDADES que vestem a amarelinha. Tudo isso com o único objetivo de expandir o alcance de sua marca e a exposição de seus produtos, certo?
Pois bem. E eis que, quando a marca deveria viver o ápice de sua exposição, a única coisa que é vista se refastelando nas lentes de uma câmera é, ao invés do brasão da empresa, isso aqui:

Fato ao qual o André dia desses aparentemente conseguiu a solução perfeita: talvez seja a hora de começarem a estampar nas camisetas “Nike and me belong to Jesus”.
domingo, 2 de agosto de 2009
Dinheiro
Dizem que durante a Idade Média - esse período que hoje nos é apresentado da forma mais tenebrosa, como se fosse, sei lá, o BAIXO ASTRAL do filme da Xuxa - ser pobre era uma coisa legal. O indivíduo que se desfazia de seus bens e se dispunha a viver uma vida miserável era considerado um exemplo de caráter. Esmolar era lindo (VELOSO, Caetano).E se tal afirmação causa estranheza a alguém, é sinal de que a tal revolução à que a sociedade se prestou deu certo.
Porque um dia chegou o capitalismo e falou que ser pobre era feio. E todo mundo acreditou. Da mesma forma que acreditaram quando, sabe-se lá quem, disse que pobreza era supimpa.
Indignadas com o fato de alguém conseguir viver sem almejar o progresso material, as pessoas começaram a atirar os pobres aos leões, a esfolar suas costas, a arrancar suas orelhas, todo esse tipo de coisa que se faz com os coleguinhas mais fracos na infância. E é isso até hoje.
Por isso que, quando eu digo hoje a alguém que não quero fazer carreira em nada, sempre olho em volta para ver se não há leões por perto.
Porque um dia chegou o capitalismo e falou que ser pobre era feio. E todo mundo acreditou. Da mesma forma que acreditaram quando, sabe-se lá quem, disse que pobreza era supimpa.
Indignadas com o fato de alguém conseguir viver sem almejar o progresso material, as pessoas começaram a atirar os pobres aos leões, a esfolar suas costas, a arrancar suas orelhas, todo esse tipo de coisa que se faz com os coleguinhas mais fracos na infância. E é isso até hoje.
Por isso que, quando eu digo hoje a alguém que não quero fazer carreira em nada, sempre olho em volta para ver se não há leões por perto.
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